22/01/10

Rubén Darío

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No âmbito do doutoramento, ao sistematizar a informação disponível sobre a biblioteca pessoal do Guilherme de Faria, encontrei este poema de Rubén Darío. Guilherme ter-se-á identificado profundamente com o seu conteúdo:


Lo fatal

Dichoso el árbol, que es apenas sensitivo,
y más la piedra dura porque ésa ya no siente,
pues no hay dolor más grande que el dolor de ser vivo
ni mayor pesadumbre que la vida consciente.

Ser, y no saber nada, y ser sin rumbo cierto,
y el temor de haber sido y un futuro terror...
¡Y el espanto seguro de estar mañana muerto,
y sufrir por la vida y por la sombra y por

lo que no conocemos y apenas sospechamos,
y la carne que tienta con sus frescos racimos,
y la tumba que aguarda con sus fúnebres ramos
y no saber adónde vamos, ni de dónde venimos!...

Rubén Darío (1867-1916)

10/01/10

António Sardinha

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António Sardinha (1887-1925) foi um notável poeta e ensaísta português, fundador do Integralismo Lusitano. Para ele, o cristianismo é uma grande democracia espiritual, a única, a verdadeira, em cujo seio somos todos irmãos e iguais diante de Deus; o que nos diferencia são apenas os méritos adquiridos e as virtudes professadas. António Sardinha viveu na procura do mistério da alma portuguesa, missão que o levou ao profundo desassossego de um projecto por cumprir. Morreu no dia 10 de Janeiro de 1925, há 85 anos.

01/12/09

Identidade e anacronismo

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Colóquio Internacional
Literaturas Nacionais: continuidade ou fim?



Guilherme de Faria: entre a identidade e o anacronismo
José Rui Teixeira

3 de Dezembro . 15 horas
Faculdade de Letras . Universidade do Porto

21/11/09

Flor da Saudade [2]

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Em Julho, com a 1ª edição da Clepsidra (1920) nas mãos, percebi que Guilherme de Faria se inspirou na edição de Camilo Pessanha para a publicação dos seus Poemas, em 1922: o tipo de papel, o modo de apresentação dos títulos, a disposição dos sonetos, etc. Na semana passada adquiri a 1ª edição de Ilhas de Bruma (1917) e, no frontispício do livro de Afonso Lopes Vieira, encontrei a 'flor da saudade', reminiscência de um estado de espírito de diáspora, promessa de um reencontro…

20/11/09

Flor da Saudade [1]

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Numa carta de 3 de Janeiro de 1926, em post-scriptum, Guilherme de Faria pede a Manuel de Castro: "E eu, como estás aí no campo, peço-te que procures uma flor chamada Saudade e que a desenhes ou peças à Emilinha o enorme favor de a desenhar, com o seu talento. Se ela algum dia se dispuser a fazer a capa do meu futuro livro, que faça um friso de saudades estilizadas, ou de qualquer forma, que eu muito, e muito e muito lhe agradeço!"
Com efeito, o livro Saudade Minha, impresso no dia 7 de Maio de 1926, tem na capa a 'flor da saudade' que passa então a ser o ex-libris do poeta, presente nas capas dos seus livros e no seu jazigo, no Cemitério dos Prazeres. A "flor chamada Saudade" é uma flor muito comum em Portugal no século XIX, utilizada como elemento decorativo nos cemitérios.
Percebe-se que Guilherme pretende timidamente que seja Emília de Castro a desenhar a 'flor da saudade', o que guarda um certo dramatismo: o poeta deseja que a mulher na qual projecta o seu amor desenhe o seu ex-libris, que tem iniludivelmente uma conotação fúnebre. Emília desenhou a 'flor da saudade' e Guilherme, no exemplar de Saudade Minha que lhe dedica, escreve: "À Emilinha, com a maior simpatia e mil agradecimentos pela sua saudade que é o único e maravilhoso encanto deste livro."

10/11/09

Post-scriptum . António Pedro

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António Pedro, Luís Silva (2009).

07/10/09

7 de Outubro de 1910

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Guilherme de Faria é o menino ao colo, no centro desta fotografia datada de 7 de Outubro de 1910, um dia depois de completar três anos. Por várias razões, não deixa de ser insólito que exista esse documento cronologicamente tão próximo da proclamação da República, diante do mesmo mar em cuja ondulação o Rei partiu para o exílio. Guilherme seria tempestuosamente afectado por esta conjuntura histórica, tempestuosamente atraído por esse mesmo mar onde, num dia de inverno, o poeta poria fim à sua vida, fundamentalmente assumida como um exílio.

06/10/09

102º aniversário

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Guilherme de Faria nasceu há 102 anos
Há 86 anos, no dia do seu 16º aniversário, no dia 6 de Outubro de 1923, Guilherme escreveu a Manuel de Castro:

"Está um dia luminoso e forte. O Sol é uma chaga rubra. E o planeta onde, por acaso, nos encontramos, vive uma hora de vida e de triunfo. Está um dia luminoso e forte. A luz do Sol é viva e forte. E eu tenho a impressão que me lograram. Sinto-me roubado, estou apreensivo e triste. Perdi quinze anos. Roubaram-me hoje quinze anos. E eu tinha já uma afeição enternecida pelos meus quinze anos. Mas veio o tempo, impassível e eterno, roubou-me os quinze anos e deu-me os dezasseis! E eu, naturalmente, sinto-me roubado. Estou apreensivo e triste. Dezasseis anos! Eu sinto sobre mim dezasseis anos? São pesados e inúteis. Não me interessa os dezasseis anos. Mas tenho saudades dos meus quinze anos. Tinha por eles uma afeição carinhosa. E tenho a impressão que me lograram. Sinto-me roubado. Estou apreensivo e triste."

Prémio de Poesia Guilherme de Faria

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Hoje, 6 de Outubro de 2009, no 102º aniversário do nascimento do poeta Guilherme de Faria, a Cosmorama anuncia a decisão do júri, constituído por Fernando Guimarães, Fernando de Castro Branco e Jorge Melícias: depois de uma análise criteriosa de todas as obras concorrentes, o júri decidiu não atribuir o Prémio de Poesia Guilherme de Faria 2009.

05/10/09

5 de Outubro

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No dia 5 de Outubro de 1923, Guilherme escreveu a Manuel de Castro uma carta que o situa ideologicamente. Em Março de 1919, numa carta ao pai, Guilherme considerava a República "o regime mais perfeito para a salvação duma nação"; porém refere-se a uma República "como a que nos governou em 5 de Dezembro e não uma República como durante 7 anos nos governou e que hoje […] nos governa, por infelicidade também. Isso não é República: são banditismos sobre banditismos, infâmias sobre infâmias." Ou seja, a República era "o regime mais perfeito para a salvação duma nação" enquanto vivia Sidónio Pais ou enquanto persistia a sua memória e a esperança de Guilherme: "Deus queira que em breve uma revolução purificadora, em que a alma Sidonista seja a alma-mater, nos liberte". Passados mais de quatro anos, como essa revolução não acontecera, estas palavras não constituem uma surpresa: "Foi há treze anos. Faz hoje treze anos. Naquela manhã fria de Outubro, manhã órfã de Sol, amanheceu para todos nós a desgraça. Faz hoje anos essa garota espalhafatosa, estúpida e má que a gente vê aí, a causticar-nos todos os dias. Tem treze anos, a pequena. […] E ante os meus olhos passam rápidas as lembranças daquele dia de farrapos, batido pelo vento, órfão de luz… E aos meus olhos regressam aflitas e contristadas as recordações daquela hora sinistra e lamacenta. […] Filha de um pobre diabo e duma megera […]. Nascida para o fado, estuprada e poluída […], esta pequenita, a república portuguesa, é o que é, é o que devia ser. Isto mesmo já o disse, num discurso imbecil no Rio de Janeiro, o ex-padrinho da garota, o Sr. António José de Almeida. […] Quando se resolvem a interná-la para todo o sempre numa casa de correcção?"

04/10/09

Coelho de Carvalho [espólio]

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No fim de Setembro a minha amiga Lurdes Paiva ofereceu-me o exemplar de Hervas (1884), de Coelho de Carvalho, que pertenceu a Guilherme de Faria. O jovem poeta – que se suicidou com apenas 21 anos – reuniu cerca de 900 livros na sua biblioteca pessoal. Nos últimos anos consegui recuperar alguns desses livros, de autores como Almeida Garrett, Teixeira de Pascoaes, Mário Beirão, António Pedro, entre outros. Curiosamente, esse processo de recuperação histórica começou com a Lurdes, no Chaminé da Mota, no ano lectivo 2002/03.





Recordo que, a pedido de Guilherme de Faria, Coelho de Carvalho escreveu uma carta-prefácio para o livro Distância (1928), de António Pedro, onde se lê:

"Sr. António Pedro
Li as canções da sua inspiração, cuja escritura original me confiou; e pelo portador lh’a devolvo. Para me assegurar de que eram verdadeira poesia, pedi ao grande poeta e meu amigo Guilherme de Faria que m’as lesse alto, em clara e consciente dicção, pois só ouvindo, que jamais lendo, eu consigo fazer ideia do mérito ou falsidade de qualquer peça de versos; que versos são feitos para serem ouvidos, e não para serem vistos. A poesia, de que o verso é a necessária forma de expressão literária, é ritmo verbal exprimindo o ritmo da emoção. […] À obra de Arte que nos leve na fuga inefável de espiritualidade para a unidade do Ser Infinito, para o além, para o ultramar do oceano da vida compreensível pela vulgaridade dos nossos sentidos imperfeitos, dever-se-á chamar ultrista, e não futurista, designação esta insuficiente e só referente a processos de estética ainda não usados até ao presente. A sua Arte, meu amigo, é caracterizadamente ultrista, como ultrista é também o fundo, a essencial psicose da do nosso Guilherme de Faria, se bem que na deste, a cultura literária e a ritual modalidade católica da sua familial educação, disciplinem e velem o livre essor da sua alma céltica, aquela alma da raça que outrora se absorvia e se volatilizava religiosamente no culto do luar, a mais espiritual das manifestações da Luz, cuja influição nos nossos sentidos nos leva embaladoramente nas asas do sonho, para além da realidade perceptível do mundo. A poesia de Guilherme é mística mais do que ultrista. É S. Francisco de Assis e Frei Agostinho da Cruz. […]"

Coelho de Carvalho, Carta – Prefácio, in António Pedro, Distância. Lisboa, 1928, I-IV.

10/09/09

Post-scriptum . Teixeira de Pascoaes

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Teixeira de Pascoaes, Luís Silva (2009).

30/08/09

Post-scriptum . Guilherme de Faria

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Guilherme de Faria, Luís Silva (2009).

30/07/09

Post-scriptum

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O Guilherme de Faria foi um 'rapaz raro'. Hoje é um poeta pouco conhecido, mas na década de 20 do século passado poucos terão sido os intelectuais, escritores ou artistas que não tenham conhecido ou mesmo contactado com o jovem poeta que em 1922, com apenas 14 anos, apresentara o seu primeiro livro – intitulado Poemas – e em 1924, com 16 anos, editara a Elegia do Amor de Teixeira de Pascoaes.
Guilherme de Faria, entre 1922 e 1929, publicou sete livros de poesia marcados ainda pelo Simbolismo e Decadentismo finissecular, mas que o inserem no Neo-Romantismo saudosista ou num Saudosismo particular que se realiza num lirismo nocturno e elegíaco; um Saudosismo que dialoga obsessivamente com a morte e em que um passadismo utópico e um profetismo sebastianista irrompem de uma saudade de Deus que é, fundamentalmente, expressão da saudade de si próprio.
Guilherme correspondeu-se e relacionou-se com os mais importantes poetas e artistas portugueses que, na década de 20, se reuniram em emblemáticos lugares de Lisboa: Raul Brandão, Fausto Guedes Teixeira, Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Alfredo Pimenta, Afonso Duarte, Fernando Pessoa, Vitoriano Braga, Mário Beirão, Almada Negreiros, Arlindo Vicente, António Botto, entre tantos outros; para além dos companheiros Manuel de Castro, António Hartwich Nunes, Anrique e Joaquim Paço d’Arcos, António Pedro, Eduardo Brazão ou José Bruges d'Oliveira.
Ainda assim caiu no esquecimento, vítima de um suicídio que certamente terá perturbado os seus contemporâneos – também nos meios literários –, mas que progressivamente foi superado, na medida em que o tempo foi passando e a memória do jovem poeta suicida foi-se esbatendo; vítima do seu tradicionalismo e da sua militância no Integralismo Lusitano; vítima da sua própria poesia que é anacrónica, enquanto está fora do seu tempo, voltada para trás, ainda que reflicta a melhor tradição lírica e elegíaca da poesia portuguesa.

A redescoberta do poeta e do seu espólio motivou o site e este blog, o meu projecto de doutoramento em Literatura (na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação da Prof.ª Doutora Maria João Reynaud) e uma dedicação particular à sua vida, obra e espólio. No que diz respeito a edições: em 2007 foi apresentada a antologia Saudade Minha, na Cosmorama (2ª e 3ª edições).

É neste contexto que apresento o projecto Post-scriptum, que implica a edição da dissertação de doutoramento sobre a Vida e Obra do Poeta Guilherme de Faria e a sua poesia completa (com inéditos) e uma fotobiografia, num volume intitulado O Livro de Guilherme de Faria.
O projecto implica ainda uma colecção de 'antologias' ou 'poesias reunidas' de autores que se relacionaram com Guilherme de Faria, como é o caso de Teixeira de Pascoaes, Mário Beirão, António Pedro ou Fausto Guedes Teixeira. Trata-se de uma perspectiva da Poesia Portuguesa segundo Guilherme de Faria; os livros serão apresentados na Cosmorama, com o mesmo formato, ensaios introdutórios da autoria de importantes académicos e a mesma metodologia de edição; os poetas serão retratados por Luís Silva. O conselho editorial é constituído por Ana Arqueiro, Ana Couto, Edmundo Couto, Francisca Pereira, Jorge Teixeira e Marta Couto.
Será apresentada uma publicação anual, inicialmente em PDF e disponível on-line, dedicada à divulgação da vida, obra e espólio de Guilherme de Faria, com ensaios, recuperação de documentos sobre o poeta (da autoria de António Pedro, Alfredo Pimenta, Joaquim Paço d'Arcos, entre outros) e reprodução de documentos do espólio. Pode parecer uma publicação ensimesmada, mas vai remover dos escombros do esquecimento muitas vidas e obras que não têm merecido a atenção da academia e das editoras.
O logotipo do projecto Post-scriptum é da autoria de Rui Ferreira.

10/07/09

Clepsidra . Camilo Pessanha

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Por estes dias, acolhi na minha biblioteca a 1ª edição da Clepsidra, de Camilo Pessanha (Edições Lusitânia, 1920). Só conhecendo esta 1ª edição, pude entender onde Guilherme de Faria foi buscar inspiração para a publicação dos seus Poemas, em 1922: o tipo de papel, o modo de apresentação dos títulos, a disposição dos sonetos, etc. Curiosamente, o nome completo do poeta é Guilherme Augusto Pessanha de Sequeira Braga Leite de Faria e, pela parte da mãe, era parente afastado de Camilo Pessanha.

01/07/09

Prémio de Poesia Guilherme de Faria

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Terminou o prazo para o envio de obras concorrentes à 2ª edição do Prémio de Poesia Guilherme de Faria. Nestes últimos dias chegaram inúmeros inéditos. Agradeço a todos os poetas que participaram.
O júri será constituído por Fernando de Castro Branco, Fernando Guimarães e Jorge Melícias. A sua decisão será anunciada no dia 6 de Outubro de 2009 neste blogue e no site da Cosmorama.

28/06/09

Luís Silva

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Em Maio, nas II Sementes de Leitura, na ESE Paula Frassinetti, conheci o ilustrador Luís Silva. Fiquei muito impressionado com a qualidade do seu trabalho.
Nesse mesmo dia, convidei-o para integrar um projecto editorial, desenhando retratos de poetas portugueses; o primeiro seria o de Guilherme de Faria. Na 6ª-feira chegou ao meu e-mail a proposta do Luís Silva:



Fiquei, naturalmente, muito entusiasmado; o retrato é notável. No e-mail em que veio anexado, o Luís escreveu: "Em termos pictóricos, o universo simbólico de que me poderia apropriar é rico e enigmático. Optei por aquela noite povoada por uns astros que são as chamadas 'formas platónicas'. Aquelas em particular saíram de esboços de Leonardo da Vinci. Todas essas referências contribuem para dar densidade ao trabalho e creio que é sobretudo aí que reside a sua alma."

25/06/09

Dissertação de doutoramento

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Por estes dias, depois de um silêncio prolongado, regressei ao trabalho na dissertação de doutoramento, sobre a Vida e obra do poeta Guilherme de Faria. Estou a fazer uma leitura minuciosa do primeiro livro: Poemas (1922), com fichas cheias de anotações sobre o 'leitmotiv', os conceitos estruturais e as especificidades de cada composição.
A primeira parte está praticamente concluída, sobre a vida do Poeta; trabalho agora dedicadamente sobre a sua poesia, com o objectivo de avançar tanto quanto possível até ao final de Agosto. Gostaria de entregar e defender a dissertação em 2010, como quem encerra um ciclo e prepara o princípio de outro.

15/05/09

Carta de Joaquim Paço d'Arcos

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Em Outubro de 1968, pouco depois da morte de Manuel de Castro, Joaquim Paço d’Arcos hospeda-se no Hotel do Luso com o intuito de escrever Destino e Obra do Poeta Guilherme de Faria, conferência pronunciada em 25 de Setembro de 1970, no Paço Ducal de Guimarães, a convite da Câmara Municipal da mesma cidade, publicada numa separata da revista Ocidente [vol. LXXIX, Lisboa, 1970] e, mais tarde, recolhida no segundo volume de Pedras à Beira da Estrada [Lisboa, Guimarães Editores, 1971, pp. 330-386].
Numa carta escrita a Luís Forjaz Trigueiros, datada de 16 de Outubro de 1968, Joaquim Paço d’Arcos situa a redescoberta de Guilherme de Faria:

Querido Luís:
Estou aqui num hotel grande e deserto – quatro ou cinco hóspedes – num Outono elanguescente e muito calmo. Separámo-nos depois da nossa conversa, em seguida à missa pelo Manuel de Castro, em que nos encontrámos. E a propósito do Manuel de Castro e do trabalho que vim encetar aqui, deixe-me prolongar a conversa e falar-lhe da minha surpresa e descoberta.
Eu fui companheiro do Manuel de Castro e do Guilherme de Faria na minha rápida passagem pelo 5º ano do Pedro Nunes, no ano lectivo de 22-23, após o meu regresso de Macau. Troquei, porém, o liceu pelo Banco Inglês e o Guilherme também não concluiu o 5º ano. Algum tempo decorrido fui para África, voltei dois anos depois de Moçambique para partir em seguida para o Brasil e foi lá que me surpreendeu, em Janeiro de 29, a notícia do suicídio do Guilherme. Quando regressei, em 30, o Guilherme era uma recordação para os amigos e um nome na Poesia portuguesa. Soube, vagamente, que um dos motivos que o haviam levado ao suicídio fora a sua paixão, não correspondida, pela Emilinha, irmã do Manuel de Castro. No meu juízo íntimo formou-se também a ideia de que outro motivo, poderoso, fora a sua inadaptação à vida de adulto, que exigia dele responsabilidades para as quais não tinha a menor preparação ou gosto, num meio onde ser Poeta não é profissão legítima e rendosa.
Tornei a estreitar os meus laços com a família do Guilherme e o pai dele voltou a ser o meu médico, como fora entre 23 e 25 e entre a vinda de África e a ida para o Brasil.
No decorrer desses quase quarenta anos continuei a ver de vez em quando o Manuel de Castro, convidei-o três ou quatro vezes para minha casa e jantei três vezes em casa dele: a primeira na Rua da Quintinha, com a mulher dele já enferma, mas ainda presente; a segunda, quando era meu vizinho na António Augusto de Aguiar; a mulher, muito doente, já não compareceu à mesa, mas ele debatia-se para não se isolar do mundo. A terceira vez, já estava ele casado com a senhora que deixou agora viúva, há cerca ou há mais de um ano, na sua casa na Calçada das Necessidades.
Eu já fora convidado para pronunciar em Guimarães a conferência sobre o Guilherme de Faria, talvez por ser escritor e ter sido amigo dele. E procurava reunir elementos para o trabalho. Sabia que o Manuel de Castro fora o maior amigo do Guilherme e nessa noite, em sua casa, referi-lhe até o boato da paixão infeliz deste pela Emilinha como causa possível do suicídio. Perguntei-lhe se não teria cartas do Guilherme. Ele foi buscar um pequeno baú castanho, de lata muito ferrugenta, e entregou-mo, pondo à minha disposição o seu conteúdo. Abri-o e verifiquei que continha maços de cartas e de envelopes envelhecidos. Trouxe-o para casa, como achega para futuro trabalho.
Não tornei a ver o Manuel, nem soube da doença que o assaltou e minou durante meses, até à morte, há um mês, quando eu estava em Londres.
Fixara no começo deste mês a vinda para o Luso impreterivelmente para o dia 12, para começar neste sossego o trabalho há dois anos prometido sobre a vida e obra do Guilherme. E sei entretanto, há poucos dias, de surpresa, no acaso de uma conversa, que o Manuel de Castro morrera na minha ausência. E sou em seguida prevenido por si da Missa do 30.º dia, mandada rezar pela viúva e pela Emilinha. A Emilinha, que eu não via há quarenta anos e que supunha ir encontrar na missa pelo irmão, na altura exacta em que ia encetar o estudo sobre a vida, obra e morte daquele que por ela se deixara afogar!
Impressionou-me a coincidência, que não se verificou aliás, por a Emilinha, doente, segundo me disseram, já não sair de casa. Mas outra coincidência ficou a impressionar-me o espírito: a da morte recente do Manuel e da missa por sua alma no dia exacto que fixara, após dois anos de adiamentos, para encetar o trabalho sobre o seu maior amigo, o nosso companheiro do Pedro Nunes de há quarenta e seis anos!
Você deixou-me à porta de minha casa e pouco depois parti para aqui, trazendo na bagagem o recheio amarelecido do baú de lata ferrugenta. Havia mais de um ano que esse recheio estava em meu poder. Poderia ter tomado conhecimento dele ainda em plena vida do Manuel e, até, obter deste os conhecimentos complementares sobre as acções e o pensamento do Guilherme, que tão úteis seriam para o meu trabalho. Mas não, nunca no ano inteiro, esmagado por tantos afazeres, abrira sequer a tampa do baú. Só agora, com o Manuel morto, ia debruçar-me sobre aqueles papéis.
Quis o destino que a correspondência do Guilherme para o Manuel de Castro permanecesse quarenta anos – a última carta é de 3 de Setembro de 28 – guardada naquele baú, sem que ninguém a violasse, sem que o próprio Manuel, segundo quase depreendi da sua última conversa, a voltasse a ler. E quis o mesmo destino que só eu me inclinasse sobre ela quando um e outro – autor e destinatário – meus companheiros da mocidade, haviam já desaparecido, um há quarenta anos, o outro ainda não há quarenta dias!
E foi tão forte a impressão que recolhi da leitura daquelas caras que não resisti ao ímpeto de prolongar a nossa conversa melancólica de há dias para lhe dizer que o Guilherme voltou à minha presença, quase meio século passado – são de 23 as primeiras páginas – mais vivo, mais humano, na sua infinita fraqueza e na alta inspiração, na imperfeição e no sonho, do que em toda a sua obra impressa de Poeta!
Pensar que o Manuel, a quem o Guilherme tão exaltadamente quis – como daquelas cartas transparece – talvez porque por detrás dele, Manuel, estava a Eleita, inatingível, estava ELA, com maiúsculas, por quem ele, Guilherme, pergunta nos Post-Scriptum – pensar que o Manuel guardou quarenta anos sepulto este legado extraordinário, interpretação a fogo da alma e da obra de um grande poeta, e o deixava esquecido se não fora a minha curiosidade; pensar que estas cartas me foram reveladas na altura em que fechou os olhos o amigo comum a quem foram dirigidas, não antes, nem depois, parece-me um daqueles caprichos do destino que tanto têm amarrado a minha obra às emoções duma vida vivida em amplitude e profundidade.
Mas, pensando bem, talvez só escrúpulo e pudor da grande amizade perdida, da fervente amizade perdida, tenha levado o Manuel de Castro a guardar, esquecidas e invioladas, as cartas do Guilherme. E tenha sido um gesto extraordinário de generosa elegância e apreço por mim a entrega confiada desse tesouro a quem dele ia fazer o que quisesse.
Estou certo de que o poderei revelar, honrando a memória do Guilherme, tacteante e amargurado, e a do Manuel, que em quarenta anos eu afinal não conheci! Mas isso levar-me-á muito longe, muito mais longe do que uma simples conferência. É assunto para conversarmos em Lisboa.
Até lá um abraço do velho amigo

Joaquim


Nota: A primeiroa esposa de Manuel de Castro foi a Sr.ª D. Maria José de Castro Pamplona (1908-1965), 9ª condessa de Resende, com quem casou em 1941. A segunda esposa foi Marie Louise Raphaelle Dumont, com quem Manuel de castro casou em 1965.

01/05/09

Espólio de Guilherme de Faria [3]

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Em meados de Março adquiri para o Espólio de Guilherme de Faria um exemplar de Poemas [1922], dedicado ao escritor António Cândido [1852-1922].
Doutorado em Direito e Teologia na Universidade de Coimbra, onde também foi professor catedrático, António Cândido Ribeiro da Costa, filiado no Partido Progressista, foi Par do Reino [1891], Procurador-Geral da Coroa e parlamentar. De entre as suas funções políticas contam-se as nomeações para Ministro do Reino e da Instrução Pública e Belas-Artes [1890], Conselheiro de Estado [1902] e Presidente da Câmara dos Dignos Pares [1905]. Defendeu activamente a descentralização administrativa e a representação política proporcional, dando relevo ao papel das minorias. António Cândido integrou um grupo de intelectuais, conhecido como os Vencidos da Vida, tertúlia que desempenhou um papel relevante na vida política e literária do final do século XIX.

24/04/09

Artes da Perversão

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Nos dias 23 e 24 de Abril de 2009 decorreu, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Colóquio Internacional e Interdisciplinar Artes da Perversão. A convite do meu amigo Pedro Eiras, falei sobre O corpo e a morte. Uma leitura teológica circunstancial da vida e obra do poeta Guilherme de Faria [24 de Abril, pelas 11 horas, no Anfiteatro Nobre], numa mesa-redonda com José Tolentino Mendonça [UCP] e Laura Ferreira dos Santos [UM]. A comunicação será publicada nos Cadernos de Literatura Comparada do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa.

15/04/09

Manuel de Castro

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Entre os amigos de Guilherme de Faria, Manuel de Castro [1907-1968] foi provavelmente o mais próximo. Companheiro no liceu, nas deambulações pela babilónica Lisboa dos anos 20, na incipiente e depois falhada aventura editorial, e confidente em quase cem cartas em que Guilherme nos deixa, de si próprio, um retrato impressionante e dramático.
Manuel de Castro nasceu em 1907; descendente, pelo lado paterno, dos Condes de Resende e, pelo lado materno, dos Marqueses de Nisa e dos Condes da Vidigueira – e, portanto, de Vasco da Gama; no seu caso, como afirma Joaquim Paço d'Arcos, "a ascendência pesou grandemente na configuração exterior e interna da personagem. Alto, loiro, racé, como os Resendes […], com o portuguesismo marialva dos Nisas".

12/04/09

O regresso...

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Há três anos seria difícil imaginar que Guilherme de Faria pudesse regressar às livrarias, com o mesmo destaque que teve há 80 anos, nas montras do Bertrand do Chiado. Por isso, encontrar a antologia Saudade Minha – Poesias Escolhidas nas secções de poesia das melhores livrarias, constitui uma enorme alegria para quem acredita e se empenha na restituição da vida e obra de Guilherme de Faria à História da Literatura Portuguesa.


FNAC NorteShopping [08.2008]

10/04/09

Arqueologia [8]

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No meu trabalho arqueológico, entre as ruínas de um espólio esquecido durante 80 anos, encontro fragmentos comoventes da vida de alguém que se suicidou com apenas 21 anos.


Manuscrito de Guilherme de Faria [sem data].

05/04/09

Mário Beirão

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Mário Beirão [1890-1965] nasceu em Beja e faleceu em Lisboa. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, exercendo o cargo de conservador do Registo Civil de Mafra. Como poeta, insere-se na corrente do Saudosismo, tendo sido amigo de Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Guilherme de Faria, entre outros. Estreia-se como poeta na revista A Águia, com o poema As Queimadas [n.º 4, 15 de Janeiro de 1911]. Em 1912 publica a plaquete Sintra. Principais obras: O Último Lusíada [1913], Ausente [1915], Lusitânia [1917], Pastorais [1923], A Noite Humana [1928], Novas Estrelas [1940], Mar de Cristo [1957], O Pão da Ceia [1964]. A sua poesia encontra-se reunida numa edição organizada por António Cândido Franco e Luís Amaro: Poesias Completas [IN-CM, 1997].

04/04/09

Teresa Leite de Faria

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A Sr.ª D. Teresa Leite de Faria [aqui numa fotografia do final da década de 30], única irmã viva do poeta Guilherme de Faria, nasceu há 86 anos, no dia 4 de Março de 1923.

03/04/09

3.ª edição de Saudade Minha

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Guilherme de Faria foi verdadeiramente um rapaz raro. Nasceu em Guimarães, em 1907. Em Lisboa, entre 1919 e 1929, Guilherme publicou sete livros de poesia; foi o editor de Teixeira de Pascoaes e amigo de alguns dos mais importantes intelectuais, escritores e artistas do seu tempo; organizou duas antologias e uma biblioteca pessoal de cerca de 900 livros; foi o destinatário ou o remetente de muitas centenas de cartas; suicidou-se com apenas 21 anos.
A sua poesia, devidamente contextualizada, obriga-nos a reler o que escreveram os grandes nomes da Literatura Portuguesa entre os 14 e os 21 anos, e – ainda que se trate de um exercício de algum modo inconsequente, na medida em que a história não se reescreve – certamente nos assolará a interrogação acerca do poeta que teria sido Guilherme de Faria se não tivesse posto fim à sua vida no dia 4 de Janeiro de 1929.
Apesar de algumas tentativas circunstanciais e esporádicas de recuperar a sua memória, Guilherme de Faria só foi verdadeiramente redescoberto depois de 80 anos de esquecimento. A Cosmorama, na linha da frente dessa redescoberta, depois da 2ª edição de Saudade minha e do dossier sobre o poeta na revista Cosmorama 07, apresentou em Abril de 2008 a 3ª edição da antologia da poesia de Guilherme de Faria, ainda no contexto das comemorações do centenário do seu nascimento.

02/04/09

Livros com RUM

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No início de 2008, a 2ª edição da antologia Saudade Minha estava praticamente esgotada; um dos mais reconhecidos programas de rádio sobre literatura – Livros com RUM de António Ferreira, da Rádio Universitária do Minho – considerou a antologia de Guilherme de Faria o segundo melhor livro de poesia de 2007.

01/04/09

O 16.º aniversário

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"Está um dia luminoso e forte. O Sol é uma chaga rubra. E o planeta onde, por acaso, nos encontramos, vive uma hora de vida e de triunfo. Está um dia luminoso e forte. A luz do Sol é viva e forte. E eu tenho a impressão que me lograram. Sinto-me roubado, estou apreensivo e triste. Perdi quinze anos. Roubaram-me hoje quinze anos. E eu tinha já uma afeição enternecida pelos meus quinze anos. Mas veio o tempo, impassível e eterno, roubou-me os quinze anos e deu-me os dezasseis! E eu, naturalmente, sinto-me roubado. Estou apreensivo e triste. Dezasseis anos! Eu sinto sobre mim dezasseis anos? São pesados e inúteis. Não me interessa os dezasseis anos. Mas tenho saudades dos meus quinze anos. Tinha por eles uma afeição carinhosa. E tenho a impressão que me lograram. Sinto-me roubado. Estou apreensivo e triste."

Guilherme de Faria, carta a Manuel de Castro, 6 de Outubro de 1923.

30/03/09

Coelho de Carvalho [citação]

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Sr. António Pedro
Li as canções da sua inspiração, cuja escritura original me confiou; e pelo portador lh’a devolvo. Para me assegurar de que eram verdadeira poesia, pedi ao grande poeta e meu amigo Guilherme de Faria que m’as lesse alto, em clara e consciente dicção, pois só ouvindo, que jamais lendo, eu consigo fazer ideia do mérito ou falsidade de qualquer peça de versos; que versos são feitos para serem ouvidos, e não para serem vistos. A poesia, de que o verso é a necessária forma de expressão literária, é ritmo verbal exprimindo o ritmo da emoção. […] À obra de Arte que nos leve na fuga inefável de espiritualidade para a unidade do Ser Infinito, para o além, para o ultramar do oceano da vida compreensível pela vulgaridade dos nossos sentidos imperfeitos, dever-se-á chamar ultrista, e não futurista, designação esta insuficiente e só referente a processos de estética ainda não usados até ao presente. A sua Arte, meu amigo, é caracterizadamente ultrista, como ultrista é também o fundo, a essencial psicose da do nosso Guilherme de Faria, se bem que na deste, a cultura literária e a ritual modalidade católica da sua familial educação, disciplinem e velem o livre essor da sua alma céltica, aquela alma da raça que outrora se absorvia e se volatilizava religiosamente no culto do luar, a mais espiritual das manifestações da Luz, cuja influição nos nossos sentidos nos leva embaladoramente nas asas do sonho, para além da realidade perceptível do mundo. A poesia de Guilherme é mística mais do que ultrista. É S. Francisco de Assis e Frei Agostinho da Cruz. […]

Coelho de Carvalho, Carta – Prefácio, in António Pedro, Distância. Lisboa, 1928, I-IV.

27/03/09

Espólio de Guilherme de Faria [2]

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Desde 2007 que me empenho em tudo o que possa contribuir para resgatar Guilherme de Faria de um obscuro esquecimento de oito décadas e devolver a sua vida e poesia à História da Literatura Portuguesa. De todo o trabalho que está a ser desenvolvido, considero prioridades a identificação, tratamento, preservação e arquivo do espólio.
Assim, importa referir o acervo que estava na posse de Frei Francisco Leite de Faria [irmão do poeta], actualmente na Biblioteca Provincial dos Frades Menores Capuchinhos; todos os documentos que estavam ainda na casa da Rua da Horta Seca [com a Sr.ª D. Teresa Leite de Faria, única irmã viva de Guilherme]; o extraordinário espólio de António Hartwich Nunes [cedido por Eduardo e Isabel Hartwich Nunes] e relevantes documentos disponibilizados por Gonçalo Leite de Faria [sobrinho], Pedro Leite de Faria [sobrinho-neto], Maria do Carmo Paço, d’Arcos e João Filipe Corrêa da Silva [filhos de Anrique e de Joaquim Paço d’Arcos, respectivamente]. É ainda de destacar o contributo de João Manuel Ribeiro.
No final de 2006 foi descoberto um espólio com cerca de 90 documentos num livreiro/antiquário de Lisboa. Desse acervo fizeram parte manuscritos de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Afonso Lopes Vieira, Mário Beirão, entre outros; acontece que esses documentos foram vendidos há muitos anos e não existe registo de quantos eram ou do seu conteúdo. Restaram pouco mais de 20 cartas de vários autores [como é o caso de Luís Almeida Braga ou Alfredo Pimenta] e um conjunto de quase 70 cartas dirigidas a Guilherme por Fausto Guedes Teixeira. Esse acervo foi comprado em 2008 e integra o Espólio de Guilherme de Faria.

25/03/09

Arqueologia [7]

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O meu amigo Eduardo enviou-me um poema manuscrito pelo pai, António Hartwich Nunes, no fim de 1928. António era um dos melhores amigos de Guilherme de Faria e a leitura deste poema [com data de 19 de Nov. de 1928] é particularmente emocionante no 80º aniversário da morte do Poeta

24/03/09

Rua Guilherme de Faria

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Hoje recebi este e-mail:
"O meu nome é Rui e vivo desde que nasci na Rua Guilherme Faria. Deixe-me dar-lhe os parabéns pela informação disponibilizada no blog e respectivas ligações. Sabia que era um poeta, curiosamente só hoje percebi e pude realmente ver quem era, o que me deixou bastante inspirado. Conhece a rua? Em Lisboa, em Alvalade, muito perto da estátua de Santo António e mesmo em frente à entrada do Liceu Rainha Dona Leonor. É uma rua sossegada, muito calma e sem saída. Eu sou artista. [...] De momento estou em Angola, integrando o projecto de reconstrução do pais na área audiovisual, mas dentro em breve estou de volta... à Rua Guilherme de Faria. Aguardo que me responda no sentido de nos conhecermos, trocarmos mais informação acerca da poesia, da pessoa, da sua tão curta vida e do que nos deixou como herança."
Fiquei muito impressionado com o e-mail do Rui (Fixação proibida), com o modo como se cruzam os caminhos.

20/03/09

O dia da morte de Guilherme de Faria

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Na manhã do dia 4 de Janeiro de 1929, Guilherme de Faria saiu de casa, na Rua da Horta Seca, passou ao lado do Largo de Camões, desceu a Rua do Alecrim e, na Estação Ferroviária do Cais do Sodré, apanhou o comboio para Cascais.
Tendo chegado, escreveu dois bilhetes-postais que endereçou ao irmão José. Nesses postais, com uma caligrafia claramente alterada, Guilherme dá indicações a José sobre a edição de Desencanto e da antologia Saudade minha. As últimas palavras do poeta: "Peça desculpa à mãe e ao pai do meu merecido fim. Adeus, irmão amicíssimo. Tenha juízo."



Colocou os postais no correio, provavelmente na Avenida Marginal, junto à Estação Ferroviária; depois caminhou junto ao mar, até à Cidadela, e seguiu pela Estrada da Boca do Inferno.
Foi um caminho sem retorno. Descalço e com um terço de rezar ao pescoço, com apenas 21 anos, Guilherme precipitou-se no mar; as fragas, a água fria e a violência das vagas reclamaram o seu corpo.
No dia 4 de Janeiro de 1929, há 80 anos, Guilherme buscou a morte, íntima companheira da sua vida e da sua poesia. Nasceu em Guimarães, onde também Portugal nascera, e morreu no mar, onde tantas vezes naufragámos.

15/03/09

Aqueologia [6]

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A amizade de Guilherme de Faria e António Hartwich Nunes é um acontecimento que os dois rapazes, na década de 20 do século passado, quiseram perpetuar. Essa amizade materializa-se, passados cerca de 80-90 anos, num espólio que reúne manuscritos autógrafos, mais de cem cartas, fotografias, desenhos e até um pequeno quadro em que António Hartwich Nunes [o Ónio] retratou Guilherme de Faria [o Guilh], já depois do suicídio.



Com efeito, o poeta morreu no princípio de 1929, com apenas 21 anos. Em 1964, com quase 60 anos [dois anos antes da sua morte], António escreveu a «carta» da sua saudade.

Carta de saudade ao Guilherme de Faria

Quando o dia acabou
E a noite ainda não começou,
A Beira-Mar é linda!
O silêncio faz doer de tanta beleza que tem.

A Beira-Mar muito limpa,
Muito pura,
Num silêncio absolutamente silêncio
Muito puro,
É a Praia Ocidental!

A Beira-Mar está limpa,
Muito limpa.
E pura,
Muito pura.
Não há ninguém na Beira-Mar.

Só lá estou eu
Na Beira-Mar
À espera de ti
E à espera de mim.


António Hartwich Nunes
Caramulo [1964]

10/03/09

Cartas Monárquicas [Alfredo Pimenta]

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Estas cartas eram aparentemente quinzenais. Alfredo Pimenta apresentou uma moção a 11 de Março de 1923 perante a assembleia geral dos sócios das Juventudes Monárquicas Conservadoras exprimindo "o desejo de que o Conselho Superior Político da Causa Monárquica convocasse sem demora o Congresso Monárquico". Perante isto alguns oradores falaram:

"Desses oradores, há um que merece referência especial, pois foi uma revelação tribunícia, como já, tempos antes, fora uma revelação poética. Trata-se de um jovem de 15 anos, Guilherme de Faria, estudante e poeta, que falando em nome da mocidade, fez, num discurso cheio de vigor, e de notável corte literário, as mais sãs e patrióticas afirmações. Houve um momento em que a assembleia estava positivamente electrizada pelas palavras do moço orador. O objectivo do seu discurso foi apoiar a moção que eu acabara de ler."

Alfredo Pimenta, Cartas Monarchicas.
Casa Editora Livraria Civilização, Porto. Carta nº 6, 30 de Março de 1923, pp. 83-84.

07/03/09

Fundação para a Ciência e Tecnologia

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No dia 26 de Novembro de 2007 foi-me concedida uma bolsa de estudos pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, no sentido de apoiar o trabalho na primeira dissertação de doutoramento que se dedica ao estudo da vida e obra de Guilherme de Faria. Trata-se de um doutoramento na área de Literaturas e Culturas Românicas, orientado pela Prof.ª Doutora Maria João Reynaud na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Nas observações da concessão da bolsa [com uma classificação de 4.275] destacam-se, no que diz respeito ao mérito do candidato, as "potencialidades derivadas de um trajecto inusual de formação" e, no que concerne ao mérito dos trabalhos a desenvolver, o "objecto de estudo com grande pertinência, quer pelo resgate previsível de bom poeta com desastrada fortuna crítica, quer por vir colmatar as muitas lacunas que entre nós deixou o lapso lansoniano".

06/03/09

Alicerces - Um sentido para a vida

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No princípio do ano lectivo 2008/09, foi distribuído por todo o país o novo manual de EMRC do Secretariado Nacional de Educação Cristã para o Ensino Secundário – Alicerces. Na Unidade Lectiva 6 – Um sentido para a vida, as páginas 23, 24 e 25 apresentam a biografia de Guilherme de Faria e uma proposta de actividade.



Pela primeira vez num manual escolar, a vida e a obra do poeta serão divulgadas, junto de centenas de professores e milhares de alunos entre os 15 e os 17 anos.

05/03/09

Joaquim Paço d’Arcos

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Joaquim Paço d’Arcos nasceu em Lisboa a 14 de Junho de 1908. Na sua infância e juventude acompanhou seu pai, oficial da Marinha: viveu em Angola e Macau, atravessou os EUA e conheceu o Sul da China. Com 20 anos foi para São Paulo, no Brasil, como antiquário, exercendo também jornalismo. Em França, em 1931, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Em Lisboa foi empregado bancário, trabalhou na Companhia Nacional de navegação e dirigiu os serviços de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros entre 1936 e 1960. Ao longo desse período, entrecortado por inúmeras viagens, Joaquim Paço d’Arcos foi erguendo a sua vasta obra literária, com 50 títulos publicados, como romancista, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta e poeta. Em Outubro de 1968 escreveu Destino e Obra do Poeta Guilherme de Faria, que é o documento mais importante sobre a vida e a obra de Guilherme. Os seus livros de memórias ficam interrompidos no final do terceiro volume por ter falecido a 10 de Junho de 1979.

01/03/09

Arqueologia [5]

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Num bilhete postal com um retrato de António Nobre, Guilherme de Faria escreveu em 1922 [com a caligrafia desse período e uma tinta muito característica] uma frase que é programática da sua poesia, irmanada com a do autor de :



Oh meu divino irmão, tão pálido e tão doce!

27/02/09

Espólio de Guilherme de Faria [1]

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Hoje, o Frei António Martins [Ministro Provincial dos Capuchinhos] autorizou a cedência do espólio de Guilherme de Faria que se encontra na Biblioteca Provincial dos Capuchinhos [Porto], para que integre um espólio mais abrangente que, em princípio [depois de identificado, catalogado, digitalizado e transcrito], será entregue na Biblioteca Nacional.
Este espólio encontrava-se com Frei Francisco Leite de Faria [irmão do poeta] que, tendo morrido em 1995, deixou-o integrado num espólio mais vasto, composto pela sua biblioteca pessoal e muitos outros documentos.
No que concerne especificamente ao espólio de Guilherme de Faria, é fundamentalmente composto por poemas manuscritos autógrafos [éditos e inéditos], o que redimensiona a sua importância no âmbito de uma edição crítica e genética da poesia de Guilherme de Faria.

25/02/09

Óscar Lopes [citação]

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"O seu tradicionalismo está assinalado pela exaltação do ramo dinástico miguelista, por um sonho heróico e passadista e até pelo culto do mote glosado cortês à maneira da medida velha, incluindo vários arcaísmos. No entanto o que fez dele um poeta notável é, sobretudo a partir de Sombra, um lirismo nocturno, elegíaco e doce, de um diálogo permanente com a morte redentora, onde parece ver (e onde realmente procurou pelo suicídio) a sua única realização possível. Estamos em presença de uma espécie de saudosismo, mas de si mesmo, mais vibrante que o de Anrique Paço d’Arcos e com alguns pontos de contacto com o de Mário de Sá-Carneiro."

Óscar Lopes, Entre Fialho e Nemésio I.
Lisboa, IN-CM, 1987, pp. 333-334.

22/02/09

Prémio de Poesia Guilherme de Faria

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Fernando Guimarães

No dia 27 de Outubro de 2007, pelas 16 horas, no Clube Literário do Porto, Fernando Guimarães falou sobre a poesia de Guilherme de Faria. Seguiu-se a entrega do 1º Prémio de Poesia Guilherme de Faria a Catarina Costa. Finalmente, foi servido um Porto de Honra e foram lidos poemas de Guilherme de Faria. Estiveram presentes vários familiares do Poeta, assim como várias pessoas interessadas na sua poesia, escritores e académicos.

20/02/09

Lúcia Leite de Faria

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A mãe de Guilherme, Lúcia Eduarda Pessanha de Sequeira Braga Leite de Faria, nasceu em Miranda do Douro no dia 20 de Novembro de 1881. Foram seus pais António Augusto Fernandes Braga (1843-1926) e Maria da Glória da Cunha Pessanha de Sequeira Braga (1854-1948). Casou com António Baptista Leite de Faria no dia 14 de Novembro de 1901, na Colegiada de Guimarães. Teve 19 filhos. Joaquim Paço d’Arcos tem este belíssimo comentário: "Pela grande família e por todos nós velava com suave bondade a senhora D. Lúcia, mãe daquele rancho alegre de que o Guilherme era o terceiro varão". A sua presença na casa da Rua da Horta Seca é uma metáfora do modo como habitou o epicentro das alegrias e das tragédias da família. Morreu em Guimarães no dia 10 de Janeiro de 1969, com 87 anos.

15/02/09

Arqueologia [4]

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Sempre afirmei a minha paixão pela arqueologia. O meu doutoramento [que começou em Filosofia na UCP e que prossegue em Literatura na FLUP] guarda o fascínio de desenterrar do esquecimento esse passado que se torna presente enquanto nos identifica.
Numa página do Notícias de Guimarães de 9 de Outubro de 1977 encontrei, a ilustrar um texto de Nuno de Sampayo, uma fotografia do Guilherme de Faria. Não é, no entanto, uma fotografia como outras que há do poeta. Guilherme está em Vigo, em Setembro de 1928, com uma boina e um sorriso informal; a fotografia foi provavelmente tirada por António Pedro, em cuja casa, em Moledo, o poeta passou uma longa temporada que testemunha os últimos momentos felizes da sua vida, poucos meses antes do suicídio. Essas férias de Verão, que estão bem documentadas [particularmente os passeios pela Galiza], constituíram a quietação serena e alegre que antecede a intempérie e o desastre.
Estive muito próximo de descobrir essa fotografia, entre Tui e Lisboa... mas não a encontrei. Vou continuar a procurá-la e, sem conseguir reproduzi-la com mais qualidade, partilho-a ainda assim, na medida em que guarda o sorriso espontâneo do poeta triste que passou pela Terra com saudades do Céu.


Guilherme de Faria em Vigo, em Setembro de 1928.

12/02/09

Crítica Textual e Crítica Genética em Diálogo

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Nos dias 18, 19 e 20 de Outubro de 2007 decorreu, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Colóquio Internacional: Crítica Textual e Crítica Genética em Diálogo. A Prof.ª Doutora Maria João Reynaud foi a Presidente da Comissão Organizadora. Entre dezenas de conferências e comunicações, falei sobre O sentido soteriológico do espólio de Guilherme de Faria [dia 18 de Outubro, pelas 17 horas, na Sala de Reuniões do piso 2 - Sessão D]. A conferência será publicada nas actas do colóquio.

10/02/09

Fernando Pessoa e Guilherme de Faria

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A relação entre Guilherme de Faria e Fernando Pessoa é, no mínimo, intrigante.
Conheciam-se. Há dois livros de Guilherme na biblioteca de Pessoa [Poemas e Mais Poemas, ambos de 1922], assinados e dedicados. No exemplar de Poemas diz: "Ao senhor Fernando Pessoa, homenagem de Guilherme de Faria"; o mesmo no exemplar de Mais Poemas que, além disso, tem a data de 6 de Outubro de 1923. Os livros foram oferecidos a Pessoa no dia em que Guilherme celebrou 16 anos. Não sei como se conheceram, quem os apresentou ou se foi apenas uma oferta de circunstância.
No catálogo da biblioteca de Guilherme de Faria há apenas uma referência a Fernando Pessoa, à edição de 1921 da sua tradução de A voz do silêncio de Helena Blavatsky.
Com efeito, há uma passagem muito interessante das memórias de Anrique Paço d’Arcos, onde se lê: "Nessa minha fugaz incursão nos meios literários uma falha se verificou de que hoje guardo verdadeiro desgosto: não ter conhecido Fernando Pessoa. Lembro-me vagamente de o ter visto uma vez a uma mesa do Martinho da Arcada, quando ali entrei com o Guilherme para este comprar cigarros. Mas então nem literariamente o conhecia ainda, e para sempre o perdi". Esta passagem indica que Guilherme não conhecia bem Pessoa ou não o reconheceu, senão tê-lo-ia cumprimentado e certamente apresentado a Anrique. Apesar de não estar datado este episódio, terá acontecido provavelmente em 1923 ou 1924, no auge da amizade entre os jovens poetas [amizade que esmoreceu, a partir de 1925, devido ao desentendimento entre Guilherme e Teixeira de Pascoaes]. É certo que Anrique não especifica o comportamento de Guilherme no Martinho da Arcada e também é verdade que pode ter sido antes de 6 de Outubro de 1923.
Descobri que as cartas com valor literário que muitos poetas e personalidades do princípio do século dirigiram a Guilherme foram vendidas a um livreiro e antiquário de Lisboa que, pela idade e pelo cansaço, não se lembrava de quem as tinha vendido e de pormenores que poderiam ser relevantes. Seja como for, assegurou-me que teve pelo menos uma carta de Pessoa. Quando e a quem a vendera? Não se lembrava... fim da história. Haveria mais cartas de Pessoa? Seria uma carta de circunstância a agradecer a oferta dos livros?
Por outro lado, Guilherme conheceu bem muitas pessoas ligadas à literatura ou à arte na década de 20; correspondeu-se com Teixeira de Pascoaes, Mário Beirão, Afonso Lopes Vieira, Almada Negreiros, Arlindo Vicente, entre tantos outros. Existe no espólio um retrato de Guilherme desenhado por Almada Negreiros e alguns desenhos e apontamentos que denunciam amizade e proximidade entre o jovem poeta e Almada. E em relação a Fernando Pessoa? Não há cartas do Guilherme no seu espólio, não existem exemplares dos outros cinco livros do Guilherme na sua biblioteca... Diria que se ignoraram mutuamente, afinal não encontrei até hoje, no espólio do Guilherme que resistiu a 80 anos de obscuro esquecimento, qualquer referência a Fernando Pessoa. Tudo isto é muito estranho, na medida em que Guilherme correspondia-se com muitos amigos do autor da Mensagem, basta lembrar [para além dos já mencionados] António Botto, Mário Saa, Vitoriano Braga, Da Cunha Dias, entre muitos outros.
Um aspecto intrigante foi-me revelado pela Doutora Manuela Parreira da Silva [professora auxiliar Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que é autora de Realidade e Ficção, para uma biografia epistolar de Fernando Pessoa e que editou a correspondência do poeta], que escreveu-me um e-mail onde diz: "Encontrei anotado por Pessoa o nome de Guilherme de Faria com a data completa de nascimento, com vista a um futuro horóscopo que tencionaria fazer-lhe".

05/02/09

O caso Aleister Crowley

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O primeiro biógrafo a abordar a relação entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley [1875-1947] foi João Gaspar Simões, que conta ter sido por causa da astrologia que Pessoa veio a conhecer "um estranho homem, verdadeiro Cagliostro dos tempos modernos, em cuja complexidade e desenvoltura se acusam os traços típicos desse misto de charlatão e de inspirado que o nosso tímido mistificador debalde procurou ser". Ao ler o horóscopo de Crowley, notou Fernando Pessoa algumas falhas e apressou-se a comunicá-las: "Tempos depois, não sem surpresa [...], recebe, de Londres, uma carta de Crowley, onde o célebre mago dava inteira razão ao astrólogo português seu confrade. Estabelece-se correspondência entre os dois; Pessoa envia a Crowley os seus English Poems, e um belo dia o mago anuncia ao seu émulo perdido nos confins ocidentais da Europa que virá a Portugal, propositadamente, para conhecer, em carne e osso, o prodígio astrológico que ele é". Segundo João Gaspar Simões, Fernando Pessoa ficou muito preocupado com a não esperada visita "daquele feiticeiro - cuja espantosa biografia lhe fora dada a conhecer lendo a história das suas estranhas aventuras na obra onde discernira o erro de interpretação astrológica". Crowley teria 55 anos quando, em 1930, chegou a Lisboa, onde desembarcou do navio «Alcântara» no dia 2 de Setembro: "Em terra, Fernando Pessoa, transido e tímido, vê avançar para ele um homem alto, espadaúdo, envolto numa capa negra, cujos olhos, ao mesmo tempo maliciosos e satânicos, o fitam repreensivamente, enquanto exclama: «Então que ideia foi essa de me mandar um nevoeiro lá para cima?»" [o navio atrasara a partida de Vigo cerca de 24 horas, em virtude de um espesso nevoeiro que se abatera sobre o litoral português]. Semanas depois, o escritor português aceita entrar "numa cabala em que Crowley dá largas ao seu cabotinismo": o inglês sai do Hotel Europa, em Lisboa, a 24 de Outubro, juntamente com a jovem alemã Anni L. Jaeger, sem explicações: "Certa cigarreira depositada sobre uma carta que um jornalista, «acidentalmente» de passagem, em Cascais, pela estrada da Boca do Inferno, encontra no Mata-Cães, denuncia o misterioso desaparecimento do famoso astrólogo. Crime ou suicídio? A notícia chega aos jornais lisboetas: "O jornalista Augusto Ferreira Gomes, confrade ocultista que no Notícias Ilustrado iria contar, sob a forma de reportagem, o desaparecimento sensacional, pertence ao complot". O mistério da Boca do Inferno nunca foi desvendado pela Polícia Internacional. Em Janeiro de 1931, Pessoa escrevia a João Gaspar Simões, dizendo ironicamente: "O Crowley, que, depois de se suicidar, passou a residir na Alemanha, escreveu-me há dias".

Em síntese: Aleister Crowley era um ocultista famoso. Pessoa, lendo numa publicação inglesa o seu horóscopo com alguns erros, escreveu-lhe a corrigir, já que era conhecedor e praticante de astrologia. Crowley ficou admirado e resolveu vir até Portugal, para conhecer o poeta. O encontro, como seria de prever, foi atribulado, já que Pessoa sentiu-se intimidado pelos desequilíbrios psíquicos e espirituais graves de Crowley. De qualquer forma prestou-se a colaborar na encenação do suicídio de Crowley na Boca do Inferno.
Haverá alguma relação entre esta história da encenação do suicídio de Aleister Crowley na Boca do Inferno em 1930 e o suicídio de Guilherme no mesmo lugar um ano antes? Terá sido Pessoa a sugerir a Crowley o local da encenação e terá sido o suicídio de Guilherme o modelo inspirador desta situação?

01/02/09

Arqueologia [3]

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Enquanto trabalhava na dissertação de doutoramento, descobri uma carta sem data, provavelmente de 1924, que Guilherme de Faria escreveu ao amigo Manuel de Castro, habitada por uma desoladora tristeza e resignação. Trata-se de um documento comovente, descoberto no mesmo dia em que encontrei um retrato do Guilherme, até aqui desconhecido, provavelmente de 1928. Há dias em que o passado não parece tão distante.



"Ainda há bem pouco te escrevi uma carta, toda ela assuntos editoriais da máxima importância. Agora, porque é tarde e porque estou há algumas horas debaixo da mais completa das abstracções, querendo despertar dela, venho escrever-te novamente. Cessem por um momento as preocupações que me têm torturado nos últimos tempos! Esqueça o meu pensamento o grave e cada vez mais complexo problema da vida que, nesta hora que tão fastidiosa decorre, é o problema dos estudos e das edições… Abandonem a minha pobre cabeça e o meu alquebrado espírito as dúvidas e incertezas dolorosas e as poucas certezas que subsistem, bem mais dolorosas e funestas do que todas as dúvidas e incertezas! Tenha eu, ao menos, a doce impressão de que num pequeno passeio, estamos conversando um pouco… Nunca senti um vácuo tão grande à minha volta. Sinto-me horrivelmente só e o meu estado moral é, a um tempo, de abatimento e desvario. Numa furtiva hora de serenidade mental, compreendi tudo: sou um pobre, condenado a este viver desolador, sofrendo a mais cruel e vã melancolia. Sou afinal um imbecil como tantos outros. Tive por certo ambições exageradas num período bem pouco distante, de absoluta inconsciência e natural infantilismo. Hoje, com uma certa maturidade de pensamento, veio a decepção fatal, a incerteza da impotência, da inanidade completa. E tudo são escombros. A minha vida é toda ela renúncia. E eu aqui estou, aqui fiquei, parado, inerte, sem uma centelha de energia, sem uma réstia de esperança, porque toda ela era infundada e ilusória."

Guilherme de Faria

30/01/09

Rasto de luz e de saudade

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No dia 5 de Dezembro de 2008 recebi uma carta do Prof. Doutor Ângelo Alves, onde me agradece e felicita pela edição da antologia de Teixeira de Pascoaes – Crepúsculo –, e onde se lê: "Para mim, Guilherme de Faria continua a ser uma revelação; passou pela vida como um meteoro, mas deixou um rasto de luz e de saudade." Às vezes não são necessárias muitas palavras para dizer quase tudo.