15/05/09

Carta de Joaquim Paço d'Arcos

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Em Outubro de 1968, pouco depois da morte de Manuel de Castro, Joaquim Paço d’Arcos hospeda-se no Hotel do Luso com o intuito de escrever Destino e Obra do Poeta Guilherme de Faria, conferência pronunciada em 25 de Setembro de 1970, no Paço Ducal de Guimarães, a convite da Câmara Municipal da mesma cidade, publicada numa separata da revista Ocidente [vol. LXXIX, Lisboa, 1970] e, mais tarde, recolhida no segundo volume de Pedras à Beira da Estrada [Lisboa, Guimarães Editores, 1971, pp. 330-386].
Numa carta escrita a Luís Forjaz Trigueiros, datada de 16 de Outubro de 1968, Joaquim Paço d’Arcos situa a redescoberta de Guilherme de Faria:

Querido Luís:
Estou aqui num hotel grande e deserto – quatro ou cinco hóspedes – num Outono elanguescente e muito calmo. Separámo-nos depois da nossa conversa, em seguida à missa pelo Manuel de Castro, em que nos encontrámos. E a propósito do Manuel de Castro e do trabalho que vim encetar aqui, deixe-me prolongar a conversa e falar-lhe da minha surpresa e descoberta.
Eu fui companheiro do Manuel de Castro e do Guilherme de Faria na minha rápida passagem pelo 5º ano do Pedro Nunes, no ano lectivo de 22-23, após o meu regresso de Macau. Troquei, porém, o liceu pelo Banco Inglês e o Guilherme também não concluiu o 5º ano. Algum tempo decorrido fui para África, voltei dois anos depois de Moçambique para partir em seguida para o Brasil e foi lá que me surpreendeu, em Janeiro de 29, a notícia do suicídio do Guilherme. Quando regressei, em 30, o Guilherme era uma recordação para os amigos e um nome na Poesia portuguesa. Soube, vagamente, que um dos motivos que o haviam levado ao suicídio fora a sua paixão, não correspondida, pela Emilinha, irmã do Manuel de Castro. No meu juízo íntimo formou-se também a ideia de que outro motivo, poderoso, fora a sua inadaptação à vida de adulto, que exigia dele responsabilidades para as quais não tinha a menor preparação ou gosto, num meio onde ser Poeta não é profissão legítima e rendosa.
Tornei a estreitar os meus laços com a família do Guilherme e o pai dele voltou a ser o meu médico, como fora entre 23 e 25 e entre a vinda de África e a ida para o Brasil.
No decorrer desses quase quarenta anos continuei a ver de vez em quando o Manuel de Castro, convidei-o três ou quatro vezes para minha casa e jantei três vezes em casa dele: a primeira na Rua da Quintinha, com a mulher dele já enferma, mas ainda presente; a segunda, quando era meu vizinho na António Augusto de Aguiar; a mulher, muito doente, já não compareceu à mesa, mas ele debatia-se para não se isolar do mundo. A terceira vez, já estava ele casado com a senhora que deixou agora viúva, há cerca ou há mais de um ano, na sua casa na Calçada das Necessidades.
Eu já fora convidado para pronunciar em Guimarães a conferência sobre o Guilherme de Faria, talvez por ser escritor e ter sido amigo dele. E procurava reunir elementos para o trabalho. Sabia que o Manuel de Castro fora o maior amigo do Guilherme e nessa noite, em sua casa, referi-lhe até o boato da paixão infeliz deste pela Emilinha como causa possível do suicídio. Perguntei-lhe se não teria cartas do Guilherme. Ele foi buscar um pequeno baú castanho, de lata muito ferrugenta, e entregou-mo, pondo à minha disposição o seu conteúdo. Abri-o e verifiquei que continha maços de cartas e de envelopes envelhecidos. Trouxe-o para casa, como achega para futuro trabalho.
Não tornei a ver o Manuel, nem soube da doença que o assaltou e minou durante meses, até à morte, há um mês, quando eu estava em Londres.
Fixara no começo deste mês a vinda para o Luso impreterivelmente para o dia 12, para começar neste sossego o trabalho há dois anos prometido sobre a vida e obra do Guilherme. E sei entretanto, há poucos dias, de surpresa, no acaso de uma conversa, que o Manuel de Castro morrera na minha ausência. E sou em seguida prevenido por si da Missa do 30.º dia, mandada rezar pela viúva e pela Emilinha. A Emilinha, que eu não via há quarenta anos e que supunha ir encontrar na missa pelo irmão, na altura exacta em que ia encetar o estudo sobre a vida, obra e morte daquele que por ela se deixara afogar!
Impressionou-me a coincidência, que não se verificou aliás, por a Emilinha, doente, segundo me disseram, já não sair de casa. Mas outra coincidência ficou a impressionar-me o espírito: a da morte recente do Manuel e da missa por sua alma no dia exacto que fixara, após dois anos de adiamentos, para encetar o trabalho sobre o seu maior amigo, o nosso companheiro do Pedro Nunes de há quarenta e seis anos!
Você deixou-me à porta de minha casa e pouco depois parti para aqui, trazendo na bagagem o recheio amarelecido do baú de lata ferrugenta. Havia mais de um ano que esse recheio estava em meu poder. Poderia ter tomado conhecimento dele ainda em plena vida do Manuel e, até, obter deste os conhecimentos complementares sobre as acções e o pensamento do Guilherme, que tão úteis seriam para o meu trabalho. Mas não, nunca no ano inteiro, esmagado por tantos afazeres, abrira sequer a tampa do baú. Só agora, com o Manuel morto, ia debruçar-me sobre aqueles papéis.
Quis o destino que a correspondência do Guilherme para o Manuel de Castro permanecesse quarenta anos – a última carta é de 3 de Setembro de 28 – guardada naquele baú, sem que ninguém a violasse, sem que o próprio Manuel, segundo quase depreendi da sua última conversa, a voltasse a ler. E quis o mesmo destino que só eu me inclinasse sobre ela quando um e outro – autor e destinatário – meus companheiros da mocidade, haviam já desaparecido, um há quarenta anos, o outro ainda não há quarenta dias!
E foi tão forte a impressão que recolhi da leitura daquelas caras que não resisti ao ímpeto de prolongar a nossa conversa melancólica de há dias para lhe dizer que o Guilherme voltou à minha presença, quase meio século passado – são de 23 as primeiras páginas – mais vivo, mais humano, na sua infinita fraqueza e na alta inspiração, na imperfeição e no sonho, do que em toda a sua obra impressa de Poeta!
Pensar que o Manuel, a quem o Guilherme tão exaltadamente quis – como daquelas cartas transparece – talvez porque por detrás dele, Manuel, estava a Eleita, inatingível, estava ELA, com maiúsculas, por quem ele, Guilherme, pergunta nos Post-Scriptum – pensar que o Manuel guardou quarenta anos sepulto este legado extraordinário, interpretação a fogo da alma e da obra de um grande poeta, e o deixava esquecido se não fora a minha curiosidade; pensar que estas cartas me foram reveladas na altura em que fechou os olhos o amigo comum a quem foram dirigidas, não antes, nem depois, parece-me um daqueles caprichos do destino que tanto têm amarrado a minha obra às emoções duma vida vivida em amplitude e profundidade.
Mas, pensando bem, talvez só escrúpulo e pudor da grande amizade perdida, da fervente amizade perdida, tenha levado o Manuel de Castro a guardar, esquecidas e invioladas, as cartas do Guilherme. E tenha sido um gesto extraordinário de generosa elegância e apreço por mim a entrega confiada desse tesouro a quem dele ia fazer o que quisesse.
Estou certo de que o poderei revelar, honrando a memória do Guilherme, tacteante e amargurado, e a do Manuel, que em quarenta anos eu afinal não conheci! Mas isso levar-me-á muito longe, muito mais longe do que uma simples conferência. É assunto para conversarmos em Lisboa.
Até lá um abraço do velho amigo

Joaquim


Nota: A primeiroa esposa de Manuel de Castro foi a Sr.ª D. Maria José de Castro Pamplona (1908-1965), 9ª condessa de Resende, com quem casou em 1941. A segunda esposa foi Marie Louise Raphaelle Dumont, com quem Manuel de castro casou em 1965.

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