30/07/09

Post-scriptum

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O Guilherme de Faria foi um 'rapaz raro'. Hoje é um poeta pouco conhecido, mas na década de 20 do século passado poucos terão sido os intelectuais, escritores ou artistas que não tenham conhecido ou mesmo contactado com o jovem poeta que em 1922, com apenas 14 anos, apresentara o seu primeiro livro – intitulado Poemas – e em 1924, com 16 anos, editara a Elegia do Amor de Teixeira de Pascoaes.
Guilherme de Faria, entre 1922 e 1929, publicou sete livros de poesia marcados ainda pelo Simbolismo e Decadentismo finissecular, mas que o inserem no Neo-Romantismo saudosista ou num Saudosismo particular que se realiza num lirismo nocturno e elegíaco; um Saudosismo que dialoga obsessivamente com a morte e em que um passadismo utópico e um profetismo sebastianista irrompem de uma saudade de Deus que é, fundamentalmente, expressão da saudade de si próprio.
Guilherme correspondeu-se e relacionou-se com os mais importantes poetas e artistas portugueses que, na década de 20, se reuniram em emblemáticos lugares de Lisboa: Raul Brandão, Fausto Guedes Teixeira, Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Alfredo Pimenta, Afonso Duarte, Fernando Pessoa, Vitoriano Braga, Mário Beirão, Almada Negreiros, Arlindo Vicente, António Botto, entre tantos outros; para além dos companheiros Manuel de Castro, António Hartwich Nunes, Anrique e Joaquim Paço d’Arcos, António Pedro, Eduardo Brazão ou José Bruges d'Oliveira.
Ainda assim caiu no esquecimento, vítima de um suicídio que certamente terá perturbado os seus contemporâneos – também nos meios literários –, mas que progressivamente foi superado, na medida em que o tempo foi passando e a memória do jovem poeta suicida foi-se esbatendo; vítima do seu tradicionalismo e da sua militância no Integralismo Lusitano; vítima da sua própria poesia que é anacrónica, enquanto está fora do seu tempo, voltada para trás, ainda que reflicta a melhor tradição lírica e elegíaca da poesia portuguesa.

A redescoberta do poeta e do seu espólio motivou o site e este blog, o meu projecto de doutoramento em Literatura (na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação da Prof.ª Doutora Maria João Reynaud) e uma dedicação particular à sua vida, obra e espólio. No que diz respeito a edições: em 2007 foi apresentada a antologia Saudade Minha, na Cosmorama (2ª e 3ª edições).

É neste contexto que apresento o projecto Post-scriptum, que implica a edição da dissertação de doutoramento sobre a Vida e Obra do Poeta Guilherme de Faria e a sua poesia completa (com inéditos) e uma fotobiografia, num volume intitulado O Livro de Guilherme de Faria.
O projecto implica ainda uma colecção de 'antologias' ou 'poesias reunidas' de autores que se relacionaram com Guilherme de Faria, como é o caso de Teixeira de Pascoaes, Mário Beirão, António Pedro ou Fausto Guedes Teixeira. Trata-se de uma perspectiva da Poesia Portuguesa segundo Guilherme de Faria; os livros serão apresentados na Cosmorama, com o mesmo formato, ensaios introdutórios da autoria de importantes académicos e a mesma metodologia de edição; os poetas serão retratados por Luís Silva. O conselho editorial é constituído por Ana Arqueiro, Ana Couto, Edmundo Couto, Francisca Pereira, Jorge Teixeira e Marta Couto.
Será apresentada uma publicação anual, inicialmente em PDF e disponível on-line, dedicada à divulgação da vida, obra e espólio de Guilherme de Faria, com ensaios, recuperação de documentos sobre o poeta (da autoria de António Pedro, Alfredo Pimenta, Joaquim Paço d'Arcos, entre outros) e reprodução de documentos do espólio. Pode parecer uma publicação ensimesmada, mas vai remover dos escombros do esquecimento muitas vidas e obras que não têm merecido a atenção da academia e das editoras.
O logotipo do projecto Post-scriptum é da autoria de Rui Ferreira.

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